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Os beats no refluxo.

A beat generation foi aquela turma de jovens intelectuais, boêmios e errantes – perdoado o clichê – que, nos idos de 1940, alçou sua literatura do subsolo para que ela chegasse a, inclusive, embasar movimentos da juventude cerca de vinte anos após.  O mote foi boicotar o formalismo literário e o otimismo pós-guerra dos “states” para versar, de forma genuína, as suas aventuras enraizadas entre bares, be-bop e longas viagens (as literais e as figuradas). On the road (Pé na Estrada, aqui nas terras tupiniquins, Jack Kerouac), O Uivo, Kaddish e outros poemas (Allen Ginsberg), Junky (ou Junkie, dependendo da edição, Willian Burroughs) são verdadeiras bíblias da contracultura, verdadeiramente afixadas no imaginário ocidental.

 

Devido aos conteúdos fortemente biográficos dos clássicos da trupe, houve a conseqüente disseminação de boa parte do que viviam Jack “On the Road” Kerouac, Neal Cassady, Allen Ginsberg, William Burroughs, Henry Miller, etc. Em contrapartida, os anos posteriores à efervescência que possibilitou o movimento representam um abismo no que diz respeito ao conhecimento do grande público. Ou seja: pouco se sabe sobre o tempo da suposta “decadência”.

 

Devidamente salvas algumas biografias, fala-se muito pouco do findar da época áurea e produtiva dos beatniks – uma das conseqüências do óbito das agitações sessentistas – e do princípio de uma década de 70 insossa e marcada pelo refluxo. Especialmente, em poucas edições figura a maneira como mesmo esses grandes nomes não puderam escapar ilesos ao regurgito das transformações até então realizadas.

 

Ignorava-se, por exemplo, que esse núcleo de ícones fundou a escola de poesia Jack Kerouac School of Disembodied Poectis (Escola Jack Kerouac de Poesias Desencarnadas), anexada à universidade budista de Boldier, Colorado. Sam Kashner, então adolescente entusiasta da poesia beatnik, foi o primeiro e único aluno da escola de Jack por algum tempo e, é para retratar esse período – entre 1975 e 1977 – que escreveu Quando eu era o talminha vida na Jack Kerouac School (Planeta, 2005).

 

Além de não se ater às delongas e focalizar um período específico, Kashner contraria as biografias usuais por não tentar ser imparcial: ele narra as peculiaridades de seus mestres com carinho sem, contudo, render-se às pieguices. O autor não busca, em momento algum, esconder o fato de que essência propulsora do movimento dissipava-se a passos largos e de que Kerouac e turma já não se encontravam em ascensão, e sim, em franco desespero para conter o naufrágio iminente.

 

Obviamente, consideradas as personas que protagonizam a narrativa, é impossível que esta se detenha aos relatos de um estabelecimento de ensino com proposições não-sistemáticas. Os, então, mestres de Kashner rendem boas histórias. Daquelas que vão tão além da sala de aula quanto possível.

 

Exatamente pelo livro haver sido livre de pretensões histórias é que sua projeção torna-se tão impressionante. Ele possibilita ao leitor que já está acostumado com as obras beats contemplar os autores por uma ótica até então não vista.  Um dos aspectos mais interessantes é que o autor isenta seu corpo docente inusitado do tom mitificador para torná-lo composto de humanos. Humanos incríveis e geniais, sim, todavia, tão cheios de tiques, excentricidades, dramas e tragédias quanto qualquer outro. Aliás, engano-me: as excentricidades, talvez, extrapolem longe a dose contida nos quaisquer outros indivíduos.

Em tempo: personagens de si mesmos, os beats renderam diversas biografias. Todas interessantíssimas, mesmo que a maioria não fuja à velha abordagem criadora de mitos. O ano de 2005 foi particularmente próspero e, além da manifestação de Sam Kashner, foram lançados, no Brasil: A Nova Visão de Blake dos Beats (Sérgio Cohn, Azougue); Jack Kerouac, o rei dos beatniks (Antônio Bivar, Brasiliense). Para quem ainda não enveredou-se na literatura subterrânea, sugiro, além dos clássicos já mencionados, O Livro de Sonhos e Os Subterrâneos, ambos de Jack Kerouac; Almoço Nu de Burroughs e A Queda da América, de Ginsberg.




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Nate Camozzato - subwaysandtrains.blogspot.com
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11/01/2009 15:42:29 - Rafael
03/10/2008 14:42:26 - nate camozzato
02/10/2008 13:17:38 - Cauê Marques
02/10/2008 13:16:42 - Cauê Marques

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